ilustração de JP Veiga

TEREZA CRISTINA MALCHER CAMPITELLI
ESCRITOR

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POR QUE ME TORNEI ESCRITORA DEPOIS DOS QUARENTA ANOS E COMO ISSO ACONTECEU?


De repente, um cachorro, chamado Labareda, saiu do meu imaginário e surgiu na minha frente, em cima de uma folha de papel em branco. Isso aconteceu talvez porque tenha chegado a esta idade cheia de sonhos. Talvez porque quando criança tenha brincado no mundo das bonecas, feito aventuras com meus primos na casa da vovó Vera, subindo em árvores e telhados, andando à cavalo, fazendo trilhas nas matas de Teresópolis (Rio de Janeiro), brincando nas ruas do Jardim Botânico e realizando explorações na natureza. Talvez porque tenha passado minha vida cercada por cachorros. Talvez porque adorasse escutar as histórias que a vovó Minussa me contava, que me introduziram no fantástico universo dos príncipes e fantoches, sapos e pombos, cavaleiros e mendigos, crianças e duendes. Talvez porque, quando mãe, tenha sido tão criança quanto meus dois filhos, Alberto e Ana Gabriela, e cuidado para que tivessem uma vida ativa, cheia de brincadeiras, com espaço para expandirem a energia que guardavam dentro de si. Talvez porque na minha profissão de educadora tenha valorizado a expressão criativa da criança, respeitado suas idéias e estimulado a expressão de cada aluno que acompanhava. Talvez porque depois de cumprir tantas coisas na vida, tenha sentido a necessidade de avivar tudo o que experimentei como criança, mãe e educadora.
O Labareda me permitiu descobrir o prazer em criar personagens, imaginar suas vidas e criar histórias. Mas desejar escrever não me foi o suficiente. Precisei de orientação, um processo que levou mais de cinco anos. E, até hoje, quase dez anos depois, não me sinto pronta para fazer minhas idéias abrirem as asas e alçarem vôos por si mesmas.
Alguns mestres me foram importantes. Cada um deles me apontou caminhos especiais, imprescindíveis aos processos do fazer literatura. A primeira foi Menga Lüdke, minha orientadora da Dissertação de Mestrado, que me fez escrever e me despertou a capacidade de desenvolver idéias genuínas; Virgínia Cavalvanti me ensinou os primeiros passos da ficção, as construções básicas do criar e escrever contos; Márcio Paschoal me mostrou a leveza e o humor que as palavras e as frases podem trazer às histórias, bem como estes suavizam as idéias que o autor possa querer expressar; Anna Claúdia Ramos me apresentou o universo da literatura infanto-juvenil, cujo empenho, que foi enorme, me fez apreender a delicada linguagem que se destina à criança e ao jovem e avaliar as relações que existim entre a literatura e a existência humana.
Meus passos ainda são tímidos e tenho um imenso caminho a percorrer, resistências a superar e universos da criação literária a descobrir. Mas sou uma apaixonada pela magia de dar vida a um personagem, tal qual Clarisse Linspector o fez com Ângela, num dos seus últimos livros, Um sopro de vida. É emocionante vislumbrar um ser, dá-lhe um nome, um contexto de vida, um desafio, um desejo e assim por diante.
Hoje, vivo cercada por eles, adoro conversar com cada um antes de dormir e ouvir o que tem a me dizer. O mais importante de tudo, eles me ajudam e me ensinam a viver, a ser uma pessoa melhor. Mais desejante.

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